FOCO

FOCO

Ganhou a câmera de aniversário. Era um modelo semiprofissional, sua esposa explicou. É usada, mas o “moço” disse que está bem conservada. Mas cadê as outras lentes? Que outras? As outras? Não tem outras. E olhou para a câmera com a teleobjetiva de 200mm em sua mão.

A partir daquele dia, virou o fotógrafo oficial da família. Cadê o Carlos, com aquela câmera legal dele? Perguntavam. E o Carlos estava do lado de fora da casa, do outro lado da rua, para conseguir foco.

Se tornou, ao mesmo tempo, a sensação e o alienado de todas as festas. As fotos parecem de revista. Comentavam. Pareciam de revista mesmo, National Geographic. Sentado no banco da praça, tirava fotos da prima no altar da igreja. Na janela do hotel, tirava fotos da esposa e filhos deitados na praia. Era a presença e a ausência, sempre sentidas. Às vezes, acenava.

Tentou aprender a ler lábios para passar o tempo. Um dia, a solidão bateu mais forte e foi para casa. Ninguém notou. Depois disso, parou de ir em festas e eventos da família. No dia seguinte, cobravam as fotos. Ele desconversava. Tá no pendrive. Quando passar pro computador, eu mando. Mas nunca mandava.

RECEITA

RECEITA

“Você vai ter que esquecer.” disse o médico.  Mais do que tudo, ele queria esquecer. Antes mesmo dos exames que descobriram o que causava a dor no seu peito.

Como a maioria das dores da vida, começou com um término. Nada demais, já tinha passado por isso antes. Mas, dessa vez, o tempo não curou. Na primeira vez em que seu braço esquerdo ficou dormente e sentiu aquela dor profunda estava escutando uma música.

No hospital, acreditavam ser um ataque cardíaco, apesar da sua pouca idade. O cateterismo não descobriu nenhum vaso entupido, mas encontrou o motivo.

“Cardiomiopatia Takotsubo”
“O que é isso?”
“Sindrome do coração partido.”
“Hã…”
“Acontece geralmente com mulheres. Exaustão completa do músculo do coração. Mas em 95% dos casos, o diagnóstico precoce permite uma recuperação completa. Você teve sorte.”
“É…”

Semanas depois, deixou o hospital. Passou por aquela praça, viu aquele banco e teve outra crise imediatamente.

“Você vai ter que esquecer.”
“Mas como?”
“De qualquer maneira. Você teve sorte até agora, mas a qualquer momento pode ter um choque cardíaco fatal.”

Buscou inspiração nos poetas e se acabou em drogas, mulheres, bebidas, boemia, prostitutas e vandalismo. Foi preso várias vezes, mas sempre era solto logo em seguida.

“Ordens médicas, senhor delegado. Ordens médicas.”