MEDO DE PULAR

Fazia um mês que ele repetia o que já se tornava um ritual. Parava em frente da janela e  olhava primeiro para cima, para o céu, admirava as nuvens, sentia o vento bater no rosto e se lembrava de que tudo isso podia ser seu. Então, ele olhava para baixo. Para o chão, 7 andares abaixo. A ponta das grades que ficavam na entrada do prédio. Imaginava se bateria nelas quando caísse. Talvez acertasse as costas na bancada do jardim. A altura não era garantia de que ele morreria. Talvez só quebrasse as costas, ficasse inválido, ironicamente como aquele ator que fez o Superman no cinema. O ritual sempre terminava do mesmo jeito, ele se afastava da janela, abria a porta e ia para o trabalho.

Ele pensava muito sobre o assunto de origens secretas. Adolescente, colecionava histórias em quadrinho. Por isso, sabia como a sua situação era única. Aranhas radioativas, acidentes em laboratórios, foguetes do espaço, medalhões mágicos. Todos os super-heróis ganhavam suas habilidades em um grande evento fantástico que mudava a sua vida. Com exceção dos mutantes, que um dia se descobriam alterando as leis da física. Mas os mutantes viviam em um mundo onde as leis da física não eram respeitadas. Para todos os outros era fácil.

Ele era só um engenheiro que lia histórias em quadrinho muitos anos atrás. Sua origem também era um acidente, mas um acidente de trabalho. Perdeu o equilíbrio quando estava no prédio que acompanhava a construção e caiu. Ele se lembra com detalhes sádicos a queda. Já tinha lido em algum lugar que o cérebro aumenta a velocidade de processamento em situações de perigo, a percepção de tempo acelera e o mundo fica em câmera lenta. Para ele foi pior, a sua percepção de tempo acelerou a níveis sobrehumanos e os 22 andares que caiu duraram o que pareceu dias. Conseguiu passar por todos os estágios de alguém que descobre que vai morrer. A negação inicial, raiva, barganha, depressão e aceitação. Mas ele não morreu. Acertou o chão e quebrou o piso de concreto que tinham armado no dia anterior.

Na alegria de não ter morrido, deu um pequeno salto e, para a sua surpresa, não parou de subir. Em frações de segundos, estava acima dos 30 andares do prédio. O pânico de repetir o acidente passou quando viu que não estava caindo. Desejou se mover até o terraço do prédio e quando pousou suas pernas pareciam de borracha. Ele desceu o elevador da obra, segurando com força nas suas vigas de aço, com medo de ser lançado novamente no ar. Quando chegou ao térreo, percebeu que tinha deixado a impressão da sua mão no metal.

E foi isso. Essa era a sua origem secreta. Sem aviso, sem motivo, ele se tornou a primeira pessoa com superpoderes do mundo. E esse era o problema. Ele testava a resistência da sua pele, deixava a mão sobre o fogo, tentava cortar sua mão com uma faca, flutuava até o teto do seu apartamento e pairava por vários minutos, prendia sua respiração por horas, levantava o seu sofá com uma única mão. Mas fazia isso com medo. Como não ter? O que ele fazia era impossível. Não deveria acontecer. E, por isso, tinha medo que tudo acabasse, de repente, do mesmo jeito que começou. E se acabasse enquanto estivesse no ar e ele caísse novamente? Dessa vez, ele morreria ou pior. E se tentasse ajudar alguém, parar um trem, levar um tiro, combater o crime, como em seus sonhos de criança, e no meio de tudo ele se tornasse uma pessoa normal?

Então, ele parava na janela do seu apartamento. E olhava para cima. E olhava para baixo. Com medo de pular. Sem motivo para ter medo. E abria a porta. E esperava o elevador.

 

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RECEITA

“Você vai ter que esquecer.” disse o médico.  Mais do que tudo, ele queria esquecer. Antes mesmo dos exames que descobriram o que causava a dor no seu peito.

Como a maioria das dores da vida, começou com um término. Nada demais, já tinha passado por isso antes. Mas, dessa vez, o tempo não curou. Na primeira vez em que seu braço esquerdo ficou dormente e sentiu aquela dor profunda estava escutando uma música.

No hospital, acreditavam ser um ataque cardíaco, apesar da sua pouca idade. O cateterismo não descobriu nenhum vaso entupido, mas encontrou o motivo.

“Cardiomiopatia Takotsubo”
“O que é isso?”
“Sindrome do coração partido.”
“Hã…”
“Acontece geralmente com mulheres. Exaustão completa do músculo do coração. Mas em 95% dos casos, o diagnóstico precoce permite uma recuperação completa. Você teve sorte.”
“É…”

Semanas depois, deixou o hospital. Passou por aquela praça, viu aquele banco e teve outra crise imediatamente.

“Você vai ter que esquecer.”
“Mas como?”
“De qualquer maneira. Você teve sorte até agora, mas a qualquer momento pode ter um choque cardíaco fatal.”

Buscou inspiração nos poetas e se acabou em drogas, mulheres, bebidas, boemia, prostitutas e vandalismo. Foi preso várias vezes, mas sempre era solto logo em seguida.

“Ordens médicas, senhor delegado. Ordens médicas.”

A FUGA

Um dia, os mortos se levantaram e caminharam pela Terra. Não houve nenhum acontecimento especial, nenhum aviso nos céus. Eles apenas se levantaram e começaram a atacar os vivos. Mas o surpreendente é que, mesmo com todos os filmes, livros, histórias em quadrinhos e videogames a respeito, o fato pegou todo mundo de surpresa. Claro que tudo o que se sabia sobre os mortos-vivos estava errado, então não se pode culpar ninguém pela surpresa.
Primeiro, os mortos são silenciosos. Eles não grunhem, gemem ou lamentam. Você não ouve eles se aproximando. Segundo, os mortos não estão interessados em comer você. Eles querem apenas que você esteja como eles: mortos. Terceiro, e mais importante, um tiro na cabeça não adianta nada. Eles continuam vindo na sua direção. Corte um braço e além de um morto-vivo, você terá também o braço dele tentando pegar você. Mas, em uma coisa eles acertaram, os mortos são lentos.
Não que isso adiante muito, porque eles não cansam. Estou escrevendo sobre isso porque imagino que sou o último homem vivo. Pelo menos, eu não vi mais ninguém nos último 7 anos. A última pessoa com quem tive contato, foi uma mulher. Ela caminhava em direção à Onda com um olhar cansado. Tentei falar alguma coisa, mas não consegui pensar em nada que pudesse fazê-la mudar de idéia.
A Onda é como eu passei a chamá-los, acho que faz quase 20 anos. Antes eram os mortos e antes disso, bem no começo, era o cara de camisa vermelha. Ele é o mais antigo da Onda e está sempre na frente. Na época em que ele me viu, ainda existia mais pessoas vivas do que mortas andando pelo planeta. Eu estava procurando comida em um supermercado, torcendo para que tivesse sobrado algo depois dos saques. Ele estava lá e começou a vir na minha direção.
Saí do supermercado, caminhando rapidamente. Não é necessário correr, como disse, eles são lentos. Voltei para o meu apartamento, juntei os meus poucos mantimentos e decidi sair da cidade. Procurar algum lugar menos habitado. Quando estava saindo do prédio, ele estava lá. O mesmo do supermercado, com sua camisa vermelha, onde ainda podia-se ler em letras azuis: “Minha outra camiseta é mais engraçada”.
De algum jeito, ele me seguiu. Eles fazem isso. Nos últimos 40 anos, varios outros se juntaram ao primeiro. Não me lembro quando foi a última vez que dormi mais do que duas horas seguidas. Caminhando, procurando comida e parando para descansar. Mas eles não cansam. Eu já posso vê-los no horizonte, em todas as direções, até onde a vista alcança. Na frente, o mesmo com a camisa vermelha.
Eu escrevo esse relato para que alguém possa entender. Eu não desisti de fugir. Eu só encontrei uma fuga melhor. Finalmente, depois de 40 anos, eu percebi que estava caminhando para o lado contrário.

Um dia, os mortos se levantaram e caminharam pela Terra. Não houve nenhum acontecimento especial, nenhum aviso nos céus. Eles apenas se levantaram e começaram a atacar os vivos. Mas o surpreendente é que, mesmo com todos os filmes, livros, histórias em quadrinhos e videogames a respeito, o fato pegou todo mundo de surpresa. Claro que tudo o que se sabia sobre os mortos-vivos estava errado, então não se pode culpar ninguém pela surpresa.

Primeiro, os mortos são silenciosos. Eles não grunhem, gemem ou lamentam. Você não ouve eles se aproximando. Segundo, os mortos não estão interessados em comer você. Eles querem apenas que você esteja como eles: mortos. Terceiro, e mais importante, um tiro na cabeça não adianta nada. Eles continuam vindo na sua direção. Corte um braço e além de um morto-vivo, você terá também o braço dele tentando pegar você. Mas, em uma coisa eles acertaram, os mortos são lentos.

Não que isso adiante muito, porque eles não cansam. Estou escrevendo sobre isso porque imagino que sou o último homem vivo. Pelo menos, eu não vi mais ninguém nos últimos 7 anos. A última pessoa com quem tive contato, foi uma mulher. Ela caminhava em direção à Onda com um olhar cansado. Tentei falar alguma coisa, mas não consegui pensar em nada que pudesse fazê-la mudar de idéia.

A Onda é como eu passei a chamá-los, acho que faz quase 20 anos. Antes eram os mortos e antes disso, bem no começo, era o cara de camisa vermelha. Ele é o mais antigo da Onda e está sempre na frente. Na época em que ele me viu, ainda existiam mais pessoas vivas do que mortas andando pelo planeta. Eu estava procurando comida em um supermercado, torcendo para que tivesse sobrado algo depois dos saques. Ele estava lá e começou a vir na minha direção.

Saí do supermercado, caminhando rapidamente. Não é necessário correr, como disse, eles são lentos. Voltei para o meu apartamento, juntei os meus poucos mantimentos e decidi sair da cidade. Procurar algum lugar menos habitado. Quando estava saindo do prédio, ele estava lá. O mesmo do supermercado, com sua camisa vermelha, onde ainda podia-se ler em letras azuis: “Minha outra camiseta é mais engraçada”.

De algum jeito, ele me seguiu. Eles fazem isso. Nos últimos 40 anos, varios outros se juntaram ao primeiro. Não me lembro quando foi a última vez que dormi mais do que duas horas seguidas. Caminhando, procurando comida e parando para descansar. Mas eles não cansam. Eu já posso vê-los no horizonte, em todas as direções, até onde a vista alcança. Na frente, o mesmo com a camisa vermelha.

Eu escrevo esse relato para que alguém possa entender. Eu não desisti de fugir. Eu só encontrei uma fuga melhor. Finalmente, depois de 40 anos, eu percebi que estava caminhando para o lado contrário.