ELE GOSTAVA MAIS DE VOAR

– Você gosta mais do papai ou da mamãe? – perguntou a tia.

– Eu gosto mais é de voar. – respondeu ele, sem pensar duas vezes.

Todos na ceia de Natal riram do garoto, fizeram comentários sobre a inocência das crianças, o tio careca fez um discurso sobre os valores da imaginação.
O garoto não prestou atenção em nada disso. Ele queria que a ceia acabasse logo para poder voar bem alto. Iria voar até o céu e esperar o Papai Noel passar. O garoto tinha 8 anos de idade e mais de 6.000 horas de vôo.

Ele passava as manhãs na escola, pensando onde iria à tarde. Achava as aulas chatas, gostava só de geografia. Mas, claro, ele gostava mais é de voar. Ao som do último sinal, ele corria para casa, almoçava, esperava o cochilo que sua mãe sempre tirava à tarde, se esgueirava até o quintal e levantava vôo.

O garoto nunca usou uma capa, como os outros meninos que pulam de telhados e quebram pernas, braços e os corações dos pais. Ele nunca gostou de super-heróis, preferia piratas.

Ele voava escondido de todos. Entendia que voar era seu segredo. Se alguém soubesse e perguntasse “Como você pode voar?”, o garoto responderia simplesmente:

– É igual andar. Você coloca um pé na frente do outro. Voar é a mesma coisa, mas você faz isso para cima.

Pedia dinheiro nos aniversários e comprava falsificados em Assunción. Quando estava triste, ele voava até Uyuni e se sentava no chão de sal. No verão visitava Galápagos. Quando entrou para o segundo grau, ele já tinha quase 18.000 horas de vôo.

Com 15 anos, ele voava menos, alguns dias não tirava os olhos dos livros e nem os pés do chão. Voava somente nos fins de semana. No ano que ia prestar vestibular, menos de 100 horas de vôo, tinha que estudar.

Na faculdade, conheceu uma garota e juntos descobriram algo que ele gostava quase tanto quanto de voar. Com estudos e namoro, voava apenas aos domingos. Quando o namoro terminou, passou uma semana em Amsterdam.

Conheceu outra garota e almoçava aos domingos na casa da sogra. Tinha arrumado um estágio e estava terminando a faculdade. Não voou naquele ano, mas um dia antes da formatura, deu uma volta completa no planeta para comemorar.

Formado, com carteira assinada, ele se lembra deste último vôo. Depois do trabalho, ele tenta voar e não consegue, esqueceu como. O garoto virou um homem. O que ele gosta mais, ainda é de voar. Mas, agora, voa apenas em sonhos.

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