DESEMBARQUE

DESEMBARQUE

O alojamento do navio cheirava a suor, vômito e água do mar. A conversa de camaradagem que tinha dominado a viagem foi substituída por um silêncio apreensivo. Era a manhã do Dia D, 6 de junho de 1944, Richard olhava para as suas botas e esperava a sua vez.

Depois de 2 meses de treinamento, ele não era mais Richard Hunter, filho de fazendeiros do Império Bretão. Ele era o Soldado Hunter, da 7ª Companhia de Rangers da sua Majestade George II. Mas um título não diminuía o gosto amargo da adrenalina que tinha na sua boca e muito menos a fraqueza nas pernas.

Os grupos que dividiam o alojamento com ele subiam para o convés, cinco em cada leva. Eles eram a vanguarda da força de desembarque, os primeiros a tocar o solo do Império Franco dominado pelos prussianos. O seu trabalho era atacar as praias pela retaguarda para que o desembarque pudesse acontecer.

O seu grupo era formado pelo Sargento Melchior da 14ª Companhia de Invocadores (que dormia no beliche em cima e, às vezes, acordava assustado durante a noite), pelo Tenente Bravestar, Cavaleiro do 10º Batalhão de Armaduras (que dormia no beliche em frente, era herdeiro de uma grande fortuna e um elitista confesso), pelo Irmão Luke, da 5ª Paróquia de Clérigos (filho único de um casal de alquimistas de Londres) e, completando o grupo, o Soldado Smith do 5º Grupo de Ladinos (que trocou uma sentença de 10 anos na prisão por roubo pela sua farda).

Nas 8 semanas de treinamento eles realizaram a mesma manobra dezenas de vezes: Hunter comandava o seu falcão por cima da área desejada, vendo pelos olhos da ave, ele escolhia o melhor lugar para a chegada, Melchior invocava primeiro um encanto de amarração com Hunter e depois um encanto de teleporte cego, se guiando apenas pelas sensações que Hunter iria passar. Mas apesar do treino anterior, agora seria diferente. Eles estavam nervosos, o terreno era desconhecido e os artefatos mágicos prussianos distorciam o campo mágico em todas as partes.

Os artefatos mágicos dos prussianos eram basicamente o motivo da guerra. De alguma forma, eles estavam fabricando armas mágicas a uma velocidade sem igual. Enquanto uma Companhia de Encantadores levava uma semana para um encantamento simples, os prussianos faziam o mesmo em apenas um dia. Essa vantagem permitiu que eles conquistassem metade da Europa e agora partiam para o ataque contra a Bretanha.

Por isso, todos que se alistavam sabiam que as chances não estavam ao seu favor. O equipamento de Hunter tinha apenas encantamentos mais pobres. Ora, o seu arco nem mesmo era encantado, apenas suas flechas: 15 flechas de velocidade, 5 de perfuração, 3 explosivas, 3 de fumaça e 3 de clarão. Além disso, seu cinto tinha 2 encantamentos de cura automática e era isso. Quer dizer, quase isso, ele também tinha a “flecha da sorte” que comprou no mercado de Londres antes de partir. Richard tinha ouvido o boato que todos os rangers dos prussianos tinham arcos encantados que disparavam sem precisar de flechas. Ele não sabia se era verdade, mas sabia que iria descobrir em breve, se tivesse sorte.

Além do problema inicial de estar sozinho atrás das linhas inimigas, existe também o risco operacional de ser teleportado para dentro de uma pedra, árvore ou uma vaca que estiver pastando. Aconteceu com alguns grupos no treinamento. Pelo menos foi o que Smith contou. Era a primeira vez na história que essa estratégia seria utilizada. Ao menos, podiam contar com a surpresa do seu lado.

Eles foram a 5ª leva a ser chamada. Subiram ao convés pela primeira vez em três dias. Era a madrugada do dia 6 e eles conseguiam ver a costa a distância, iluminada por clarões, relâmpagos e bolas de fogo. Vinte e cinco jovens ingleses, preparados para morrer pelo seu reino. Os rangers soltaram seus falcões, os invocadores tocaram suas frontes e os encantos de teleporte foram pronunciados. Por poucos segundos, o coração de Richard parou, o chão se tornou o céu, o mundo virou do avesso e o ar deixou de cheirar a sal e passou a cheirar como terra molhada, esterco fresco e grama. Desembarque.

 

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