SOMBRA

11/04/2012

Ele olhava para trás de tempos em tempos, tentando divisar na multidão por quem estava sendo seguido. Do outro lado da rua, eu estava seguro que não ia ser visto.

Eu olhei para trás exagerando o movimento. Sabia que isso deixaria meu perseguidor tranquilo, achando que não estava sendo visto. Aproveitava os reflexos das vitrines de lojas ocasionais para observá-lo do outro lado da rua. Esse jogo terminava hoje.

Ele seguia por um caminho novo, diferente do habitual. Não estava indo para o escritório e, muito menos, para a casa de alguma das “habituais”. Meu único receio era que pegasse um táxi. Isso iria dificultar as coisas para mim.

No meio de um caso eu percebi que estava sendo seguido. Tentei continuar meu trabalho, investigando o sujeito e lidar com isso depois, mas descobri que meu perseguidor estava fazendo perguntas ao meu respeito. Decidi que seria melhor conseguir algumas respostas eu mesmo.

Quando recebi a ligação achei que seria mais um marido pulando a cerca. A voz era feminina e tinha aquela rouquidão chorosa. Achei irônico quando descobri que o sujeito também era um detetive particular.

Quando parei a investigação, já tinha descoberto quase tudo sobre o alvo: nome Marcos Arantes do Nascimento, 38 anos, pé-rapado, expulso da polícia, largou a faculdade de direito, virou detetive particular. Irônico.

E perigoso, andava armado, suspeito de desaparecer com alguns clientes caloteiros. Nada contra. Também odeio clientes caloteiros.

Descobri que ele tinha mentido para algumas clientes sobre a fidelidade dos maridos para estimular a infidelidade delas. Talvez tenha sido algum desses maridos ou esposas que tenha me contratado para investigar o sujeito. Talvez tenha sido algum deles que tenha contratado esse cara para me seguir. Não importa, depois de hoje ele não seguia mais ninguém.

Um desses clientes inclusive era um velho conhecido meu. A esposa tinha pedido para eu descobrir se ele andava visitando outros galinheiros. Menti e acabei cantando de galo. Mundo pequeno. Por via das dúvidas, também passei a andar armado. Marcos Arantes do Nascimento não nasceu ontem.


FOCO

28/03/2012

Ganhou a câmera de aniversário. Era um modelo semiprofissional, sua esposa explicou. É usada, mas o “moço” disse que está bem conservada. Mas cadê as outras lentes? Que outras? As outras? Não tem outras. E olhou para a câmera com a teleobjetiva de 200mm em sua mão.

A partir daquele dia, virou o fotógrafo oficial da família. Cadê o Carlos, com aquela câmera legal dele? Perguntavam. E o Carlos estava do lado de fora da casa, do outro lado da rua, para conseguir foco.

Se tornou, ao mesmo tempo, a sensação e o alienado de todas as festas. As fotos parecem de revista. Comentavam. Pareciam de revista mesmo, National Geographic. Sentado no banco da praça, tirava fotos da prima no altar da igreja. Na janela do hotel, tirava fotos da esposa e filhos deitados na praia. Era a presença e a ausência, sempre sentidas. Às vezes, acenava.

Tentou aprender a ler lábios para passar o tempo. Um dia, a solidão bateu mais forte e foi para casa. Ninguém notou. Depois disso, parou de ir em festas e eventos da família. No dia seguinte, cobravam as fotos. Ele desconversava. Tá no pendrive. Quando passar pro computador, eu mando. Mas nunca mandava.


PÚBLICO-ALVO

07/02/2012

Foi utilizada a tecnologia mais avançada do mundo. Não se economizou dinheiro no experimento. A criação do animal de estimação perfeito: um gato falante.

Os gatos já são os preferidos pelas pessoas solitárias, a lógica diz que um gato falante seria ainda mais eficiente. Mas, por algum motivo, o gato não falava.

Todos os fios estavam no lugar, o tratamento foi um sucesso aparente. Apesar disso, os cientistas tentavam conversar em vão com o gato que olhava com desdém e voltava a dormir. Eles testavam todos os testes e experimentavam todos os experimentos, mas nada do gato falar.

Até que um dia, a filha de um dos cientistas visitava o laboratório e o gato finalmente falou. Conversou com ela por horas. Mas quando os cientistas tentavam falar com o gato, este nada.

A idéia foi da garotinha: “Se vocês quiserem, eu posso perguntar pra ele porque ele não fala com vocês.” A resposta do gato foi a pior possível.

O gato explicou porque ele não falava com os cientistas: “Porque vocês não tem nada de interessante para dizer.” O experimento, enfim, se provou um fracasso. Um animal de estimação falante que só fala com quem ele quer não é um produto muito bom. Deram o gato para a garotinha e alteraram o projeto.

Tudo indicava que dessa vez, acertariam. Para a surpresa de todos, outro fracasso. Ao contrário do gato, o cachorro nunca parava de falar e, o que é pior, só conversava sobre o BBB.


CRISTIANE

23/01/2012

Cristiane era filha de um empresário rico. Sua mãe havia falecido quando ela ainda era muito jovem, o que fez com que seu pai se casasse novamente. Depois que seu pai morreu, sua madrasta tomou conta da cobertura que era de Cristiane. Cristiane então, passou a viver com sua madrasta malvada, que junto de suas duas filhas que tinham inveja do corpo sarado de Cristiane, transformaram-na em uma empregada. Ela tinha de fazer todos os serviços domésticos – lavar, varrer, cozinhar, passear com o cachorro e dar banho no gato – e ainda era alvo de deboches e malvadezas. Seu refúgio era o DCE da sua própria casa e seus únicos amigos, os desconhecidos que ela adicionava no Orkut.

Um belo dia, é anunciado que o deputado irá realizar um festa na boate mais badalada, para que o filho dele escolha sua ficante dentre todas as moças das colunas sociais. No convite, distribuído a todas as pessoas diferenciadas, havia o aviso de que todas as moças, que fossem ricas, bonitas e de boa família, deveriam comparecer na festa promovida pelo deputado.

A madrasta de Cristiane sabia que ela era a mais gostosa da região, então disse que ela não poderia ir, pois não tinha um vestido apropriado para a ocasião. Cristiane então, com a ajuda de seus amiguinhos do Orkut, criou a comunidade “Eu odeio minha Madrasta Malvada” e ficou o resto da noite esperando a fada madrinha, que nunca apareceu.


A ESTRADA

10/01/2012

Ele conseguiu as botas em troca de um pote de gordura de rato. A gordura era boa para proteger a pele do sol e o rato era bom para matar a fome. Por isso, sem a gordura, a sua pele rachava e sangrava enquanto ele gastava suas botas novas na estrada.

A estrada se estendia até onde conseguia ver. Atrás dele, a um dia de caminhada, estava o posto de troca onde conseguiu as botas novas. À sua frente, estava a estrada.

Ele não tinha pouso certo. O lugar onde nasceu ficava ao largo de outra estrada parecida com esta. Era uma pequena fazenda com uma horta ainda menor atrás da casa de um quarto. Quando se tornou homem feito, seu pai lhe deu uma faca, uma moringa cheia e um adeus curto. A horta não poderia sustentar três, então ele devia ir. E foi.

Na noite anterior, ele tinha visto luzes ao longe. Não luz de fogo, luz antiga, dos tempos em que a estrada tinha sido feita. Quando amanheceu, ele continuou viagem, esperando ver de onde vinha a luz. Em alguns lugares da estrada, existe luz e, às vezes, outras coisas do passado.

Ele avistou a construção alguns minutos atrás. Ela ocupava toda a estrada, de um lado ao outro. Pequenas casas idênticas, uma ao lado da outra e, entre elas, a estrada continuava. De algumas casas, pedaços de madeira se estendiam sobre a estrada. Em outras, a madeira apodreceu e caiu.

Ele se aproximou com o cuidado que as coisas do passado mereciam. Da casa mais próxima veio um som agudo e distorcido, seguido pela voz de uma mulher.

– Boa tarde. O valor do pedágio é de 4 créditos. Por favor, deposite no coletor.

– Cadê você? – perguntou

– Por favor, deposite o valor do pedágio no coletor e siga o seu caminho, evite filas para a conveniência de todos.

– Eu não tenho nenhum desse “créditos”. – respondeu

A casa clicou, chiou e estalou antes da voz continuar.

– Sem créditos. Por favor, pegue o retorno.

– Eu não posso voltar. – argumentou

– O valor do pedágio é de 4 créditos.

Ele olhou para baixo, procurando uma resposta.

– Eu tenho minhas botas… elas são novas. Elas valem os seus créditos. – disse, sem nenhuma dúvida na voz

A casa clicou, chiou e apitou. Desta vez, a voz demorou para voltar. Quando tinha quase certeza de que estava sozinho de novo, a voz falou novamente.

– Boa tarde. O valor do pedágio é um par de botas novas. Por favor, deposite no coletor.

Em um momento, a parede da casa estava lisa e no outro havia um quadrado perfeito cortado na parede. Ele se sentou, tirou suas botas novas e colocou no buraco que desapareceu novamente. O pedaço de madeira que saia da casa subiu lentamente, liberando passagem para a estrada à frente.

O caminho ondulava com o calor. A sua pele rachava e sangrava sob o sol, os seus pés queimavam sobre a estrada.


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