PÚBLICO ALVO

Foi utilizada a tecnologia mais avançada do mundo. Não se economizou dinheiro no experimento. A criação do animal de estimação perfeito: um gato falante.

Os gatos já são os preferidos pelas pessoas solitárias, a lógica diz que um gato falante seria ainda mais eficiente. Mas, por algum motivo, o gato não falava.

Todos os fios estavam no lugar, o tratamento foi um sucesso aparente. Apesar disso, os cientistas tentavam conversar em vão com o gato que olhava com desdém e voltava a dormir. Eles testavam todos os testes e experimentavam todos os experimentos, mas nada do gato falar.

Até que um dia, a filha de um dos cientistas visitava o laboratório e o gato finalmente falou. Conversou com ela por horas. Mas quando os cientistas tentavam falar com o gato, este nada.

A ideia foi da garotinha: “Se vocês quiserem, eu posso perguntar pra ele porque ele não fala com vocês.” A resposta do gato foi a pior possível.

O gato explicou porque ele não falava com os cientistas: “Porque vocês não têm nada de interessante para dizer.” O experimento, enfim, se provou um fracasso. Um animal de estimação falante que só fala com quem ele quer não é um produto muito bom. Deram o gato para a garotinha e alteraram o projeto.

Tudo indicava que, dessa vez, acertariam. Para a surpresa de todos, foi outro fracasso. Ao contrário do gato, o cachorro nunca parava de falar e, o que é pior, só conversava sobre o BBB.

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ELE GOSTAVA MAIS DE VOAR

– Você gosta mais do papai ou da mamãe? – perguntou a tia.

– Eu gosto mais é de voar. – respondeu ele, sem pensar duas vezes.

Todos na ceia de Natal riram do garoto, fizeram comentários sobre a inocência das crianças, o tio careca fez um discurso sobre os valores da imaginação.
O garoto não prestou atenção em nada disso. Ele queria que a ceia acabasse logo para poder voar bem alto. Iria voar até o céu e esperar o Papai Noel passar. O garoto tinha 8 anos de idade e mais de 6.000 horas de vôo.

Ele passava as manhãs na escola, pensando onde iria à tarde. Achava as aulas chatas, gostava só de geografia. Mas, claro, ele gostava mais é de voar. Ao som do último sinal, ele corria para casa, almoçava, esperava o cochilo que sua mãe sempre tirava à tarde, se esgueirava até o quintal e levantava vôo.

O garoto nunca usou uma capa, como os outros meninos que pulam de telhados e quebram pernas, braços e os corações dos pais. Ele nunca gostou de super-heróis, preferia piratas.

Ele voava escondido de todos. Entendia que voar era seu segredo. Se alguém soubesse e perguntasse “Como você pode voar?”, o garoto responderia simplesmente:

– É igual andar. Você coloca um pé na frente do outro. Voar é a mesma coisa, mas você faz isso para cima.

Pedia dinheiro nos aniversários e comprava falsificados em Assunción. Quando estava triste, ele voava até Uyuni e se sentava no chão de sal. No verão visitava Galápagos. Quando entrou para o segundo grau, ele já tinha quase 18.000 horas de vôo.

Com 15 anos, ele voava menos, alguns dias não tirava os olhos dos livros e nem os pés do chão. Voava somente nos fins de semana. No ano que ia prestar vestibular, menos de 100 horas de vôo, tinha que estudar.

Na faculdade, conheceu uma garota e juntos descobriram algo que ele gostava quase tanto quanto de voar. Com estudos e namoro, voava apenas aos domingos. Quando o namoro terminou, passou uma semana em Amsterdam.

Conheceu outra garota e almoçava aos domingos na casa da sogra. Tinha arrumado um estágio e estava terminando a faculdade. Não voou naquele ano, mas um dia antes da formatura, deu uma volta completa no planeta para comemorar.

Formado, com carteira assinada, ele se lembra deste último vôo. Depois do trabalho, ele tenta voar e não consegue, esqueceu como. O garoto virou um homem. O que ele gosta mais, ainda é de voar. Mas, agora, voa apenas em sonhos.

Gostou dos contos? Confira o livro.

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Quantas palavras são necessárias para se contar uma história? No caso deste livro, no mínimo, 125. A ideia do “Ele gostava mais de voar” é apresentar contos curtos, que não demoram para ser lidos, mas levam muito tempo para ser esquecidos. As narrativas continuam com você, instigando, maravilhando e divertindo. Para ser lido de uma vez ou apreciado aos poucos, este livro foi feito para quem gosta da literatura com sabores variados. Uma surpresa a cada página. Se gostar, repita. Se não, vire a folha e experimente o próximo.

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FOCO

Ganhou a câmera de aniversário. Era um modelo semiprofissional, sua esposa explicou. É usada, mas o “moço” disse que está bem conservada. Mas cadê as outras lentes? Que outras? As outras? Não tem outras. E olhou para a câmera com a teleobjetiva de 200mm em sua mão.

A partir daquele dia, virou o fotógrafo oficial da família. Cadê o Carlos, com aquela câmera legal dele? Perguntavam. E o Carlos estava do lado de fora da casa, do outro lado da rua, para conseguir foco.

Se tornou, ao mesmo tempo, a sensação e o alienado de todas as festas. As fotos parecem de revista. Comentavam. Pareciam de revista mesmo, National Geographic. Sentado no banco da praça, tirava fotos da prima no altar da igreja. Na janela do hotel, tirava fotos da esposa e filhos deitados na praia. Era a presença e a ausência, sempre sentidas. Às vezes, acenava.

Tentou aprender a ler lábios para passar o tempo. Um dia, a solidão bateu mais forte e foi para casa. Ninguém notou. Depois disso, parou de ir em festas e eventos da família. No dia seguinte, cobravam as fotos. Ele desconversava. Tá no pendrive. Quando passar pro computador, eu mando. Mas nunca mandava.

ONDE ESTÁ?

“Estamos no século XXI. Onde estão os carros voadores que prometeram pra gente?” – escreveu ele, de um computador portátil que mede 11cmx6cm, para leitores no mundo inteiro e usando apenas o dedão.

“Vivemos no século XXII. Porque não temos viagens espaciais ainda?” – pensou, transmitindo seu pensamento instantaneamente através de um simbionte biônico no seu cérebro, para outras pessoas no mundo inteiro.

“Este é o século XXIII. Quanto tempo mais até podermos viajar no tempo?” – disse, através da boca do quinto clone presencial que controlava, a mais de 100.000.000 km de distância de onde estava o corpo em que nasceu.

“Eu estou no século XV. Cadê os cavaleiros, donzelas e batalhas que tinham me prometido?” – falou para o camponês, que parou de arar o campo e olhava com medo para o estranho, em vestimentas prateadas.

DESEMBARQUE

O alojamento do navio cheirava a suor, vômito e água do mar. A conversa de camaradagem que tinha dominado a viagem foi substituída por um silêncio apreensivo. Era a manhã do Dia D, 6 de junho de 1944, Richard olhava para as suas botas e esperava a sua vez.

Depois de 2 meses de treinamento, ele não era mais Richard Hunter, filho de fazendeiros do Império Bretão. Ele era o Soldado Hunter, da 7ª Companhia de Rangers da sua Majestade George II. Mas um título não diminuía o gosto amargo da adrenalina que tinha na sua boca e muito menos a fraqueza nas pernas.

Os grupos que dividiam o alojamento com ele subiam para o convés, cinco em cada leva. Eles eram a vanguarda da força de desembarque, os primeiros a tocar o solo do Império Franco dominado pelos prussianos. O seu trabalho era atacar as praias pela retaguarda para que o desembarque pudesse acontecer.

O seu grupo era formado pelo Sargento Melchior da 14ª Companhia de Invocadores (que dormia no beliche em cima e, às vezes, acordava assustado durante a noite), pelo Tenente Bravestar, Cavaleiro do 10º Batalhão de Armaduras (que dormia no beliche em frente, era herdeiro de uma grande fortuna e um elitista confesso), pelo Irmão Luke, da 5ª Paróquia de Clérigos (filho único de um casal de alquimistas de Londres) e, completando o grupo, o Soldado Smith do 5º Grupo de Ladinos (que trocou uma sentença de 10 anos na prisão por roubo pela sua farda).

Nas 8 semanas de treinamento eles realizaram a mesma manobra dezenas de vezes: Hunter comandava o seu falcão por cima da área desejada, vendo pelos olhos da ave, ele escolhia o melhor lugar para a chegada, Melchior invocava primeiro um encanto de amarração com Hunter e depois um encanto de teleporte cego, se guiando apenas pelas sensações que Hunter iria passar. Mas apesar do treino anterior, agora seria diferente. Eles estavam nervosos, o terreno era desconhecido e os artefatos mágicos prussianos distorciam o campo mágico em todas as partes.

Os artefatos mágicos dos prussianos eram basicamente o motivo da guerra. De alguma forma, eles estavam fabricando armas mágicas a uma velocidade sem igual. Enquanto uma Companhia de Encantadores levava uma semana para um encantamento simples, os prussianos faziam o mesmo em apenas um dia. Essa vantagem permitiu que eles conquistassem metade da Europa e agora partiam para o ataque contra a Bretanha.

Por isso, todos que se alistavam sabiam que as chances não estavam ao seu favor. O equipamento de Hunter tinha apenas encantamentos mais pobres. Ora, o seu arco nem mesmo era encantado, apenas suas flechas: 15 flechas de velocidade, 5 de perfuração, 3 explosivas, 3 de fumaça e 3 de clarão. Além disso, seu cinto tinha 2 encantamentos de cura automática e era isso. Quer dizer, quase isso, ele também tinha a “flecha da sorte” que comprou no mercado de Londres antes de partir. Richard tinha ouvido o boato que todos os rangers dos prussianos tinham arcos encantados que disparavam sem precisar de flechas. Ele não sabia se era verdade, mas sabia que iria descobrir em breve, se tivesse sorte.

Além do problema inicial de estar sozinho atrás das linhas inimigas, existe também o risco operacional de ser teleportado para dentro de uma pedra, árvore ou uma vaca que estiver pastando. Aconteceu com alguns grupos no treinamento. Pelo menos foi o que Smith contou. Era a primeira vez na história que essa estratégia seria utilizada. Ao menos, podiam contar com a surpresa do seu lado.

Eles foram a 5ª leva a ser chamada. Subiram ao convés pela primeira vez em três dias. Era a madrugada do dia 6 e eles conseguiam ver a costa a distância, iluminada por clarões, relâmpagos e bolas de fogo. Vinte e cinco jovens ingleses, preparados para morrer pelo seu reino. Os rangers soltaram seus falcões, os invocadores tocaram suas frontes e os encantos de teleporte foram pronunciados. Por poucos segundos, o coração de Richard parou, o chão se tornou o céu, o mundo virou do avesso e o ar deixou de cheirar a sal e passou a cheirar como terra molhada, esterco fresco e grama. Desembarque.

 

MEDO DE PULAR

Fazia um mês que ele repetia o que já se tornava um ritual. Parava em frente da janela e  olhava primeiro para cima, para o céu, admirava as nuvens, sentia o vento bater no rosto e se lembrava de que tudo isso podia ser seu. Então, ele olhava para baixo. Para o chão, 7 andares abaixo. A ponta das grades que ficavam na entrada do prédio. Imaginava se bateria nelas quando caísse. Talvez acertasse as costas na bancada do jardim. A altura não era garantia de que ele morreria. Talvez só quebrasse as costas, ficasse inválido, ironicamente como aquele ator que fez o Superman no cinema. O ritual sempre terminava do mesmo jeito, ele se afastava da janela, abria a porta e ia para o trabalho.

Ele pensava muito sobre o assunto de origens secretas. Adolescente, colecionava histórias em quadrinho. Por isso, sabia como a sua situação era única. Aranhas radioativas, acidentes em laboratórios, foguetes do espaço, medalhões mágicos. Todos os super-heróis ganhavam suas habilidades em um grande evento fantástico que mudava a sua vida. Com exceção dos mutantes, que um dia se descobriam alterando as leis da física. Mas os mutantes viviam em um mundo onde as leis da física não eram respeitadas. Para todos os outros era fácil.

Ele era só um engenheiro que lia histórias em quadrinho muitos anos atrás. Sua origem também era um acidente, mas um acidente de trabalho. Perdeu o equilíbrio quando estava no prédio que acompanhava a construção e caiu. Ele se lembra com detalhes sádicos a queda. Já tinha lido em algum lugar que o cérebro aumenta a velocidade de processamento em situações de perigo, a percepção de tempo acelera e o mundo fica em câmera lenta. Para ele foi pior, a sua percepção de tempo acelerou a níveis sobrehumanos e os 22 andares que caiu duraram o que pareceu dias. Conseguiu passar por todos os estágios de alguém que descobre que vai morrer. A negação inicial, raiva, barganha, depressão e aceitação. Mas ele não morreu. Acertou o chão e quebrou o piso de concreto que tinham armado no dia anterior.

Na alegria de não ter morrido, deu um pequeno salto e, para a sua surpresa, não parou de subir. Em frações de segundos, estava acima dos 30 andares do prédio. O pânico de repetir o acidente passou quando viu que não estava caindo. Desejou se mover até o terraço do prédio e quando pousou suas pernas pareciam de borracha. Ele desceu o elevador da obra, segurando com força nas suas vigas de aço, com medo de ser lançado novamente no ar. Quando chegou ao térreo, percebeu que tinha deixado a impressão da sua mão no metal.

E foi isso. Essa era a sua origem secreta. Sem aviso, sem motivo, ele se tornou a primeira pessoa com superpoderes do mundo. E esse era o problema. Ele testava a resistência da sua pele, deixava a mão sobre o fogo, tentava cortar sua mão com uma faca, flutuava até o teto do seu apartamento e pairava por vários minutos, prendia sua respiração por horas, levantava o seu sofá com uma única mão. Mas fazia isso com medo. Como não ter? O que ele fazia era impossível. Não deveria acontecer. E, por isso, tinha medo que tudo acabasse, de repente, do mesmo jeito que começou. E se acabasse enquanto estivesse no ar e ele caísse novamente? Dessa vez, ele morreria ou pior. E se tentasse ajudar alguém, parar um trem, levar um tiro, combater o crime, como em seus sonhos de criança, e no meio de tudo ele se tornasse uma pessoa normal?

Então, ele parava na janela do seu apartamento. E olhava para cima. E olhava para baixo. Com medo de pular. Sem motivo para ter medo. E abria a porta. E esperava o elevador.